Jornal Público, sex 30Nov2012: Os museus de Pequim vão ser mais importantes do que os de Londres?

 

(Entrevista de Vanessa Rato a Iain Robertson, especialista em mercados emergentes e responsável por Estudos de Negócios em Arte do Sotheby’s Institute)

Estamos a falar de quê, quando falamos hoje de mercados emergentes na arte?

Dos BRIICS: Brasil, Rússia, Índia, Indonésia, China e África do Sul. São as novas grandes economias. Outra questão é: que arte se faz nestes países e em que condições? Alguns destes mercados estão a construir novas formas de produzir valor. No Ocidente temos as galerias e museus a tornar artistas famosos para cobrar mais dinheiro pelos seus trabalhos. Alguns destes novos mercados estão a ensaiar modelos diferentes.

Que tipo de modelos?

Em países como a Indonésia assistimos a uma reintrodução dos ofícios na produção contemporânea. Isso relaciona-se com a cultura tradicional de uma forma a que já assistimos no Ocidente. E na China a história antiga está a ser reintroduzida através da pintura tradicional e da comercialização das pedras naturais como esculturas. Neste sentido, estão a voltar aos fundamentos da sua cultura antes da chegada do modernismo, um modelo exportado pelo Ocidente. Hoje, os BRIICS estão a reagir a esse modelo, nalguns casos de forma radical. E os seus modelos são muito interessantes, porque, em alguns casos, produzem arte incompreensível para nós.

Por exemplo?

O óbvio: a caligrafia (chinesa). Não sabemos lê-la. E, mesmo quando sabemos, é necessário ter estudado literatura chinesa para perceber as histórias. De duas imagens os chineses conseguem ler uma metáfora. Por exemplo: galinha saltitante e cão saltitante. Na China, simboliza o caos. Podemos chegar a percebê-lo, mas não nos é imediato. E o caso da Indonésia é ainda mais complexo, dado tratar-se de uma cultura compósita, com influências religiosas do hinduísmo ao budismo e a a cultos anteriores às grandes religiões. Como é que o Ocidente vai perceber os contextos em que a arte destes países nasce? Os mercados ocidentais são muito fortes, mas acho que vão ter dificuldades em mercantilizar estas duas culturas.

Mas Índia, Brasil e China são mercados que potencialmente se alimentam a si próprios.

Antecipou a minha questão. É isso: são mercados auto-suficientes. A China, em particular.

Assim, não será o Ocidente que precisa dos emergentes e das suas “novidades”?

Há um mercado de exportação de arte chinesa, indiana e indonésia. Mas não do tipo de coisas que são consumidas internamente nesses países. No fundo, há um fosso entre o gosto nacional e o consumo internacional do que, na essência, não é arte chinesa ou indiana, mas arte produzida para exportação. Isto recua até aos tempos em que os portugueses e holandeses importavam cerâmicas que pareciam chinesas mas eram feitas para estrangeiros.

Estamos à distância de séculos. Ainda podemos falar numa arte nacional? Por exemplo: Ai Weiwei. Não é um artista chinês? Não faz arte chinesa?

É um bom exemplo. Na verdade, como artista, não tem qualquer voz na China, mas é a menina dos olhos dos media ocidentais. Não quero ser aqui um apologista da China, mas há que reconhecer que ele trabalha muito bem a comunicação social – os sound bites que produz são impressionantes. A questão, porém, é que uma arte feita para consumo internacional tem de  se confrontar com a estética dos mercados ocidentais. E essa arte não se enquadra nos contextos nacionais de países como a China ou a Índia. Já a África do Sul e o Brasil estão mais homogeneizados com os padrões ocidentais. Um artista como Vik Muniz é muito brasileiro, mas também muito internacional. Face a isto, a pergunta interessante é até que ponto o Ocidente foi bem-sucedido a colonizar culturalmente. Em alguns casos muito bem-sucedido, como na África do Sul. Noutros menos, como na Índia, com uma cultura que engoliu todas as que se aproximaram dela.

Pode argumentar-se que…

Que isto é uma espécie de conservadorismo nacionalista, a tocar o fascismo. Diria que não. Não se trata da apologia de uma arte nacional para públicos nacionais, trata-se da continuação de uma tradição perdida devido a aberrações. A cultura chinesa quase se perdeu (com a Revolução Cultural). A cultura indiana  esteve sob ameaça (com o colonialismo britânico). Esses é que foram períodos excepcionais para estes países. Agora estão a redescobrir os seus passados.

Há outras descobertas a fazer. Na Índia, uma experiência para um ocidental é o confronto com a escultura dos templos hindus, que antecede em séculos princípios do minimalismo.

Claro! O minimalismo, o abstraccionismo – tudo isto se passava na Ásia há milhares de anos. E na Indonésia tanto da cultura está ligado à dança javanesa e balinesa que há um conceito diferente do que é a arte, que não surge como objecto isolado. Isso é a essência do mercado da arte: isolar um objecto e atribuir-lhe um valor. Mas houve um tempo em que não era assim: construía-se uma igreja e lá dentro havia esculturas, a igreja era uma gesamtkunstwerk, uma obra de arte total – não podíamos atribuir um valor unitário, peça a peça. Acabámos por nos tornar óptimos a isolar esses bens, mas isso é absolutamente estranho a muitos destes mercados emergentes, ainda ligados a sistemas pré-capitalistas.

Por outro lado, estamos a assistir à reprodução dos modelos de dessacralização da obra de arte. Por exemplo, na proliferação de museus segundo o modelo ocidental.

É verdade. E é muito preocupante. O museu é a exportação mais perigosa da cultura ocidental, porque põe a cultura num plano separado do da vida quotidiana. No seu O Museu Imaginário, André Malraux explica que é péssima ideia, porque estamos a descontextualizar, a sobrevalorizar uns objectos em detrimento de outros, a dizer, por exemplo, que uma pintura é melhor e mais valiosa do que uma colher talhada à mão. Antes do tempo dos museus, objectos como cálices de prata eram muito mais valorizados do que uma pintura de Rafael. Portanto, há muito poder em determinar o que é melhor.

Por que reproduzem os emergentes o modelo ocidental?

Há um fosso entre o que o mercado de alguns governos e políticos querem em alguns países – que é voltar a uma certa tradição – e o que querem alguns indivíduos muito ricos e influentes. Os grandes coleccionadores têm que ter museus onde depositar as suas obras porque é o que se faz no Ocidente. Há um desligamento entre os coleccionadores e as cidades sobre o que se acha que deve ser uma cidade. Temos que encontrar novas fórmulas.

Nos BRIICS há crescente poder económico, por oposição à Europa e EUA, onde o poder de compra e investimento em arte e cultura é agora decrescente. O que vai acontecer à medida que o Ocidente se torna mais pobre?

O cenário-catástrofe é que os museus ocidentais tenham que tornar-se mais comerciais e vender obras dos seus acervos. O certo e natural é que à medida que a Ásia e a América do Sul se tornam mais fortes, as suas artes se tornem mais presentes. Que uma visita a um museu em qualquer lado do mundo comece com arte oriental. E que uma visita à National Gallery de Pequim se torne mais importante do que à National Gallery de Londres. São revoluções silenciosas em curso. E será necessário reeducarmo-nos de forma a percebermos os equilíbrios entre as várias culturas. É um projecto para gerações, porque nem sequer a noção oriental de progresso é igual à ocidental. Nós acreditamos no crescimento, na expansão, numa marcha linear da história, no Oriente os conceitos são muito mais circulares. Basta olhar para o desenvolvimento da pintura tradicional chinesa: não é um movimento que procure tornar-se tecnicamente mais “avançado”.

No fundo, está a dizer que, ao arrasto das movimentações económicas mundiais, estamos a acelerar uma reescrita da história da arte.

Numa frase, é isso. O mundo está a reconfigurar-se. O presidente chinês será tão importante – se não mais – quanto o norte-americano. Como resultado, precisamos de um novo livro de história da arte. A História da Arte do Gombrich tem talvez três representações de arte chinesa! E o Médio Oriente? E o papel da Pérsia? A Grécia é vista como a fonte de toda a cultura. Temos uma narrativa da cultura ocidental isolada, a começar nos gregos e a acabar no modernismo. É muito conveniente, mas não é a verdadeira história. Até os turcos foram até Viena[durante o Império Otomano]! Há cruzamentos gigantes que não são suficientemente explorados.

Como é que isso se traduz num mercado global para a arte?

Antes de mais, com os holandeses. Os portugueses foram os primeiros comerciantes à escala global, mas tinham um estar mais romântico. Os holandeses mostraram um verdadeiro mercado com os bens importados da China e Indonésia, o primeiro mercado da arte global. E ajudou a financiar os artistas num país que não tinha [o cânone da]Academia. Os holandeses tinham-se livrado das guildas medievais e não as tinham substituído por nada. Tinham um mercado muito próximo daquilo que temos hoje. Apesar de, hoje, os museus de arte contemporânea serem a nova Academia.

Não vê diferença entre um MoMA e a Academia? 

Ambos representam um gosto. O dos museus de hoje será mais desligado do Estado, que representava um gosto aristocrático. Os museus de hoje representam um gosto burguês, fundado pelos galeristas, que recomendam todos os artistas e refletem um gosto burguês.

E os públicos, não têm gosto?

Sim: burguês. Só o pode ser, num sistema capitalista. E é a razão de ser um galerista: antecipar esse gosto.

É como se estivesse a falar de um pronto-a-vestir.

Mas a arte pop é isso, tal como a segunda geração da pop, que está a trabalhar hoje. No Ocidente, com a revolução industrial, já ninguém sabe o que quer dizer a tradição. Como é que se volta atrás para encontrar significados perdidos? Quando se luta pela sobrevivência financeira 24 horas por dia, é difícil. Uma cultura comunal: talvez seja o que vai ter enorme impacto na arte internacional com a emergência dos BRIICS.

Em que sentido? 

A arte não é mais do que saber manipular materiais e perceber o seu significado na vida quotidiana. Esse é o fascínio da arte oriental – mantém essa relação ritual. Gostava que olhássemos mais para materiais do que para conceitos. Nascemos, vivemos, morremos: são os únicos conceitos fundamentais. Há espaço para a imaginação, mas estruturar todo o nosso pensamento à volta de questões não fundamentais é uma perda de tempo.

Ou seja, por si, Duchamp saía dos museus…

Duchamp foi a força mais destrutiva da arte ocidental. Afinal, queremos um urinol ou uma maravilhosa pintura cheia de técnica? Se insistirmos numa arte de urinóis, então é o que merecemos: urinóis. Tudo bem.

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