Interview for RDB!

 Rua de Baixo

NA RUA

Edição Nº92, Maio, 2013

“DARKTOURISM”

Depois de se ter estreado em Lisboa apresenta-se em Almada, no dia 15, na Sala Experimental do Teatro Municipal Joaquim Benite, antes de seguir para o Porto no último fim de semana de Junho.  Mais uma oportunidade para conhecer o último trabalho deste novo colectivo teatro que aposta no humor irreverente e numa forte carga simbólica em cena.

No primeiro espectáculo em 2012 foram SillySeason, uma banda rock e o nome pegou. Depois fizeram Ricardo, com os Burgueses, que recriava um desfile de moda. São um colectivo de jovens criadores, conheceram-se ainda no secundário no Ballet Teatro do Porto (com excepção da Cátia Tomé que veio do Algarve), depois continuaram a estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa. A Catia Tomé e a Ana Sampaio passaram também pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.  São muito críticos em relação à sociedade onde vivem, são irreverentes, levam muito a sério o que fazem, trabalham e criam com poucos meios se for preciso. Nasceram num ano horrível para a criação teatral e mesmo assim já contam com três produções e preparam uma terceira. Iremos conhecê-los melhor numa entrevista que publicaremos no próximo mês.

Darktourism: ir aos lugares onde a morte ganhou

A ideia do espectáculo nasceu quando Rita Morais (que também estuda turismo) ouviu falar de um conceito, o Darktourism, trabalhado por John Lennon e Malcolm Foley, e que aborda uma área da actividade turística que se dedica a promover o conhecimento e o contacto com lugares relacionados com a morte e com o sofrimento humano (Auschwitz, Chernobil, Hiroxima, entre outros).

O  espectáculo está dividido em três actos e tem um prólogo. O primeiro acto é dominado pela viagem relacionada com os chamados BRIICS (Brasil, Russia, Indonesia, India e África do Sul). No segundo acto há um corte com isso e introduzem a ideia de recomeço. “ E se nós tivéssemos andado a fazer as perguntas erradas?”, diz uma actriz dando o mote para um refazer das experiências, numa série de tentativas em busca de um discurso artístico.  E no terceiro acto entregam a cena a Celina da Piedade. Nas residências COOP na Rua Garret  saímos de uma sala e numa outra encontrávamos Celina cantando “Pera Verde”. Explicam porque é que resolveram convidar a cantora a participar no Darktourism:

Eu costumo dar o exemplo dos ready made. Temos uma obra pronta, aquilo preexiste. È estranha a nós. Ela tem o seu espaço natural de actuação, os concertos. E nós pegamos nela, trazêmo-la para a descontextualizamos”. – começa por dizer Cátia Tomé, assinalando a identificação que fizeram com o trabalho de pesquisa que a cantora faz sobre a música tradicional portuguesa. A Rita Morais reforça a ideia:

O que acontece é que a nossa estética é muito pós-moderna, muito pouco tradicional na relação que temos com os materiais cénicos, nós andamos sempre à procura da identidade, a identidade nem sempre só no sentido artístico mas também daquilo que somos como pessoas. E a Celina foi a solução porque ela é o improvável, ela é aquilo que menos esperávamos, que somos pessoas com cerca de vinte e poucos anos, e que de repente nos sentimos totalmente fascinados com o seu trabalho.”

darktourism

Um teatro pobre de meios mas rico expressivamente

Darktourism começa com um texto projectado no palco e que resulta de um trabalho dramatúrgico que privilegiou a colagem (e onde misturam, indiscriminadamente, textos deles com palavras de  Gilles Lipotevski,  Al Berto, Samuel Beckett e até André E. Teodósio dos Praga). A dividir a plateia e a cena um quase invisível fio de nylon (que no segundo acto será quebrado). Ao mesmo tempo que o texto se desenvolve, num círculo, que alude à Caverna de Platão, os actores fumam.  Entretanto, para os mais incautos em matéria de sinais, há-de passar uma frase deste texto projectado que esclarece que “fumar ou deixar os cigarros acesos é a mesma coisa”, anunciando um sentido de absurdo que, a par da permanente alegoria, se manterá como constante da construção dramatúrgica.

A expressão teatral dos SillySeason é muito diversificada: entre eles tanto dançam como cantam ou representam. Há quem toque. Isso reflecte-se em Darktourism: para além da interpretação tanto temos uma paródia à dança indiana, como uma canção típica da Indonésia. Ou temos uma solo de guitarra. Além dessa dimensão mais performativa também utilizam amiúde o microfone para potenciar o efeito do jogo dramático e integram materiais vídeo que interagem com a cena e com os actores.

Estamos a falar de um teatro muito austero de meios, que acaba por reforçar o trabalho imaginativo dos Sillyseason: um microfone, três ou quatro iodines, um projector vídeo, uma pequena estrutura de madeira,  alguns adereços e figurinos, os meios técnicos para a reprodução de uma música de Celina Piedade, são o bastante para eles levantarem a cena.

darktourism

Irreverência e grande carga simbólica em cena

As figuras sucedem-se numa brincadeira pegada com a nossa história.  O Infante D. Henrique veio vestido de sereia e é entrevistado por uma actriz a falar a um microfone:

O Infante D. Henrique veio em forma de sereia porque é um grande navegador.  Ele veio reescrever a história. É a ideia também de redescobrir.”, diz o Ricardo Teixeira, a quem coube defender esta personagem em cena.

Depois há um casal fantástico que observa toda a cena: ela, uma dama muito generosa que está sempre a dar fruta para comer e que na forma como o figurino foi construído evoca Carmen Miranda, ele vestido de flor, uma flor que voltou à Europa e que é o lugar onde ela foi feliz. Pergunto-lhes como é que chegaram a este casal. A Rita Morais explica que tem muito a ver com uma ideia que veio do contacto com o Teatro Praga:

É a ideia de trabalharmos os nossos guilty pleasures. Pegarmos  nas coisas que temos vergonha de adorar e trazê-las para cena…finalmente posso ter as minhas frutas na cabeça, há anos que eu quero ser uma árvore e nunca consegui ser uma árvore no espectáculo, há anos que eu quero ser a Carmem Miranda.”

E as imagens sucedem-se assim. Um assador com um frango a arder que é a Europa e isso foram buscar a uma memória de Harry Potter:

“A certa altura voltámos ao passado e andámos aqui às voltas com o Harry Potter. E lembrámo-nos da Fénix do Prof. Dumbledore, e a Fénix também tem uma repercussão com a Grécia, e isso interessava-nos para essa ideia de algo que renasce…neste caso temos um frango que está a arder, e depois há um frango a arder que é a europa…”

A ideia deles era colocarem um pintainho na sala onde Celina da Piedade canta (há dias em que ela pode estar no espectáculo, há outros dias em que apenas se vê o vídeo e se ouve a sua canção) mas como tiveram medo de lhe fazer mal colocaram apenas um ovo. “É o nosso ovo de colombo”, disseram-me.

Dramaturgia a várias mãos

Esta profusão de sinais cénicos, aquilo que faria delirar uma certa interpretação semiótica dos espectáculos, articula-se com um texto que investe muito na desconstrução argumentativa e no humor. “-Devemos valorizar a opinião dos patetas, são a maioria”, é uma das muitas das frases que quase como num espectáculo de stand-up, surgem inesperadamente.

A certa altura uma lavadeira, que começa por expressar a sua simpatia por Kafka, vem fazer um solilóquio sobre a verdade. Ela diz: “a partir do momento em que os nossos actos são testemunha, adaptamo-nos aos olhos que nos observam. E a partir daí nada é verdadeiro. Ter um público, pensar no público é viver na mentira. Quem perde a sua identidade perde tudo. E quem renuncia voluntariamente a ela é um monstro. Por isso eu não me importo de ter relações clandestinas. Muito pelo contrário. Só assim é que é possível viver na verdade”.

E, para não termos alguma dúvida do valor que eles dão a uma elaboração discursiva tradicional,  a sua fala começa a distorcer-se e transforma-se numa paródia sobre a palavra bacanal. Nos SillySeason o trabalho dramatúrgico é assumido colectivamente mesmo que Ivo Silva seja formado em Dramaturgia (com João Leitão que também participa na criação de Darktourism). Conversam, defendem ideias, tentam convencer os companheiros do interesse das suas propostas. Pegam em fragmentos. Todos leem. Tentam perceber se aquilo serve o espectáculo que a partir de certa altura começa a ser algo autónomo que os guia na recolha e selecção dos materiais. Talvez por isso tenham muitas vezes a sensação, principalmente quando se confrontam com obras já feitas como a canção da Celina da Piedade,  de que trabalham sobre formas fragmentadas, até paradoxais. Diz a Rita Morais:

O nosso discurso tem também muito a ver com o que queremos dizer, então há sempre uma mistura entre o que vai na nossa cabeça e o que queremos fazer com o corpo, e as coisas têm de coincidir, têm de coexistir numa certa loucura cénica.”

D A R K T O U R I S M dos SillySeason


Dia 15 de JUNHO às 21h30
no Teatro Municipal Joaquim Benite,
Sala Experimental
Dias 28, 29 e 30 Junho às 21:30 no CACE Cultural do Porto
CRIAÇÃO: SillySeason (Ana Sampaio, Cátia Tomé, Ivo Silva, Ricardo Teixeira e Rita Morais) com João Leitão e Miguel Cunha
ADEREÇOS: João Silva
APOIO TÉCNICO: Alexandre Gomes Ferreira
PRODUÇÃO: SillySeason

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