MEDEIA POR SILLYSEASON

Lisboa,  26 de Novembro de 2013

Escrever obriga a pensar, ou pensar obriga a escrever? Inauguramos finalmente, sob o pretexto de escrever sobre MEDEIA, um novo formato de existência SillySeason, o desafiador e eterno formato escrito. De ora em diante, seremos também uma mancha gráfica nas vossas vidas, pretendendo criar um espaço comum de discussão, reflexão e pesquisa, relacionado ou não com a produção performativa. Levantaremos os fantasmas da crítica e da teoria para os apresentarmos às outras figuras que povoam o nosso imaginário. Afinal de contas, o nosso único grande medo é provavelmente a falta de tempo… e é por aí que começaremos:

  1. A formalização a que chegámos com MEDEIA, seja pela simplicidade de conteúdo e limpeza de ideias, seja pela rapidez com que tivemos de nos organizar dentro do núcleo SillySeason, obrigou-nos a equacionar um ano caótico, ainda que bastante produtivo, no que toca a projectos realizados. SillySeason não é nem pretende ser um colectivo homogéneo ou unidimensional e, no meio do caos, tentámos alimentar esta tónica, optando por expor MEDEIA enquanto a nossa MEDEIA, a de cada um de nós. Quando decidimos vestirmo-nos de igual – com túnica preta e turbante floral – estamos a assumir profundamente a fusão das individualidades, numa partilha efervescente que, “por acaso” até narra a história de uma mulher que não abdica nunca da sua independência e realização pessoais, mesmo que isso implique pôr em causa toda a comunidade em que se insere. Aquilo que em Medeia (a personagem euripidiana) constituía uma desvantagem, ou seja, o amor e o coletivo (i.e. a sociedade de Corinto), são-no, por enquanto, vitais para nós.
  2.  MEDEIA é mais um grafitti, mais um gesto de ocupação e conquista de um lugar, uma voz, uma expressão, por mais virtual que seja o lugar, a voz desafinada e a expressão incoerente…
  3. Quando nos interrogamos sobre a natureza de um espetáculo e aqui especificamente sobre a razão de ser da MEDEIA, percebemos claramente que não queremos “evangelizar” ninguém na leitura dos clássicos, que não fazemos “doutrina” porque não vamos ensinar como é que se lê um texto, muito menos um texto traduzido a partir do grego antigo, nem tão pouco sabemos como é que se encena a Medeia. É que não existe mesmo qualquer tipo de regra ou preceito! Acabamos sempre por concluir que a honestidade de uma proposta terá que ver com o amor, ou se preferirem: com um forte sentimento que nos impele a fazer de determinada maneira.
  4. Deparamo-nos com estas e outras questões mais “corriqueiras” e fortemente politizadas como a falta de dinheiro para adquirir a maioria dos materiais, a falta de espaço de ensaio e de condições de primeira necessidade ou o simples boicote por greves dos transportes, e isto não nos torna seres especiais, quais super-heróis dos tempos hipermodernos, nem tão pouco mártires da crise de valores. Relativizamos – é tão saudável relativizar! – e não desistimos. Somos pós-modernos, arranjamos part-times e trabalhamos incansavelmente até ao dia do espectáculo. Esta é definitivamente a nossa única atitude política: confundirmos as estatísticas negativistas e não sermos esmagados pelos obstáculos.
  5. Ao assistirmos à Medeia de Pier Paolo Pasolini (a ver se a Maria Callas tinha alguma coisa que pudéssemos roubar para a Mónica Sintra), encontrámos um prólogo que acabou por se tornar na nossa sinopse. A evolução do texto que se baralha e confunde realidade e ficção, espelha a natureza do mito e a natureza daquilo que queríamos apresentar. A própria história de Jasão, a procura do velo de ouro, os conselhos do seu pretenso pai e o princípio de tudo ser sagrado e nada ser natural culminar na ideia da inexistência de Deus, abriu-nos o caminho para extrapolarmos alguns conceitos chave:     5.1) Se a questão do sagrado vs. natural (profano) depender do olhar de quem vê, será essa então a magia dos tempos em que vivemos e que, por sua vez, legitima a coabitação de texto clássico com uma letra da Mónica Sintra, o primeiro suportando o outro, dando-lhe coerência, comentando-o e questionando-o como no Coro das mulheres de Corinto, tornando a apresentação numa espécie de monólogo partilhado.  5.2) O mesmo se aplica aos binómios alta cultura vs. baixa cultura, arte erudita vs. arte popular e comédia vs. tragédia aos quais colocámos também as seguintes questões: a) Quem é o censor?; b) Sr. Censor, se a alta cultura é composta também pela baixa cultura e a baixa cultura é só baixa cultura (e o mesmo para a arte erudita que contém a arte popular), será a tragédia por excelência mais culta e mais erudita que a comédia ou a tragédia é que é popular e só os cultos conseguem ironizar sobre ela?; c) Estão errados todos os pressupostos anteriores?.
  6.  Roubar o velo d’ouro não trouxe nem riqueza nem prosperidade a Jasão, como trazia ao rei Eetes. Do mesmo modo, não nos trará a nós riqueza o roubo de um património intocável que já está morto, e coberto de spray dourado do chinês. São formas pré-estabelecidas, convencionadas e das quais nenhum sucesso ou prosperidade podemos esperar.
  7.  A Medeia e a Mónica Sintra espelham esta nossa incapacidade para definir uma linguagem artística própria, transformando-nos na tragédia e na comédia das nossas vidas pessoais, i.e., naquilo que temos vergonha de adorar. Contemos ambas, a Mónica e a Medeia, com os seus universos próprios, os seus dramas e as suas alegrias. Uma grega, a outra portuguesa, mas as duas profundamente ocidentais, europeias e cheias de dignidade, ainda que completamente vencidas.
  8. O autógrafo da Mónica Sintra é uma proposta quase imposta de prolongamento da vida da obra na vida das pessoas do público. A ideia de autógrafo é deturpada porque o ídolo morreu. Desta vez não é o “ídolo” que é forçado a dar um autógrafo mas sim o suposto “fã” que é obrigado a recebê-lo como uma derradeira súplica de amor.

Nós somos filhos de uma era em que tudo chegou a um término. Tudo morto, morto, morto! Deus está mais que morto, a Arte está morta, a História chegou ao fim, a Europa morta também, uma verdadeira catástrofe. E o Amor? E o Amor capaz de gerar vida? – pergunta Medeia a Jasão (relembremos que Medeia mata na medida em que ama); – Esse  amor também morreu. Agora amo-me só a mim. – responde Jasão. E nesse mesmo instante Medeia mata os próprios filhos e todos os que o rodeiam. – Que fizeste? – pergunta Jasão. – Destruí tudo! (responde Medeia) Finalmente sou uma artista pós-moderna! (o público ri-se).

Cátia Tomé & Rita Morais

(MEDEIA estreou no dia 12 de Novembro de 2013, no Clube Ferroviário, em Lisboa. Criação coletiva de SillySeason com a participação especial da cantora Mónica Sintra.)

Publicado aqui >>>>> http://www.dnalisboa.pt/medeia-por-sillyseason/

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