FREI LUÍS DE SOUSA POR ISABEL PESTANA

Lisboa, 30 de Dezembro de 2013

Esta nova abordagem de Frei Luís de Sousa é como que uma colagem de momentos essenciais que progridem para um final anunciado enumeras vezes que nunca chega a verificar-se de facto. Termina num interrompido que recomeça em loop – a acção é interrompida no momento em que o Romeiro está prestes a surgir e no momento em que se adivinharia a sua chegada, o plano corta e a acção repete-se desde o momento inicial.

Outro aspecto a ter em consideração são os arranjos narrativos resultantes da adaptação literária que são introduzidos através da montagem, fornecendo ao filme momentos de subtexto, não existentes na obra – vejamos por exemplo o momento em que a Madalena tenta aproximar-se de Manuel de Sousa e o movimento é repetido por diversas vezes transmitindo dessa forma a tensão entre eles.

Atrevo-me a dizer que algumas obras não deveriam ser deixadas em paz apenas como livros, os filmes servem também para resgatá-las e trazer-nos uma nova releitura daquela que fizemos. Neste caso, os momentos escolhido funcionam como isso mesmo, uma releitura deixada em suspenso e que recomeça sem darmos por isso.

Na história escrita de Almeida Garrett, o Romeiro chega, mas é como se não tivesse chegado. Mais uma vez, a curta termina nesse momento de interrupção em que, narrativamente, o Romeiro – primeiro marido de Madalena perdido na guerra – regressaria. A curta, nessa abordagem, consegue levar isso ao paroxismo, às suas extremas consequências – o Romeiro, na curta, é ao mesmo tempo mais generoso se pensarmos do ponto de vista do espectador e das próprias vítimas (a sua família) e mais perverso porque aqui, não regressa de facto deixando-nos no suspenso já referido.

Há uma imagem em O Último Ano em Marienbad de Alain Resnais onde um corpo cai de uma cama e a imagem repete-se três ou quatro vezes seguidas com pequenas variações, que parecem sugerir hesitações num acto de recuperação de memoria – rememorações. A intenção desta repetição é idêntica à de Frei Luís de Sousa (curta) na medida em que não há nenhuma intenção que nos é explicitamente impingida mas antes levemente sugerida. Podemos introduzir intenções à posteriori e a virtude do que é apresentado está nisso mesmo; nesse distanciamento Brechtiano que fazemos e nos questionamos das intenções dos SillySeason naquilo que nos querem passar – nesses actos repetitivos, podem ser interpretadas como hesitações dos próprios personagens ao descrever os eventos ou ao rememorá-los. A intenção do grupo (SillySeason) é a de nos transportar para o seu acto criativo, projectando diferentes versões daquilo que pretende representar.

A repetição mecânica pode ser interpretada como as personagens à procura de saída para uma determinada ideia/realidade e esse mecanismo entra em loop; a acção torna-se mecânica e em loop dentro de si própria – facto das imagens serem exactamente iguais e repetidas, levam-me a sugerir isto.

Podemos ainda estabelecer um paralelo com o minimal repetitivo, tanto na musica como na literatura. Quando há repetições, o filme pode tentar aproximar-se do exercício formal do minimal para provocar uma certa inquietação/irritação por parte do espectador – em Einstein on the Beach de Phillip Glass por exemplo e na literatura nas obras de Thomas Bernhard “não é o facto de estes barulhos terem estado sempre a ressoar na minha cabeça, destes barulhos terem estado sempre presentes, estarem sempre presentes e continuarem a estar presentes (…)” – onde a repetição e a redundância sistemática, não são um defeito, mas antes um estilo.

Isabel Pestana

(Isabel Pestana é aluna do terceiro ano de Cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Tem experiência em anotação em co-produções francesas – Maison Close II e Une Famille Formidable – cujas rodagens tiveram lugar em Lisboa. Ao abrigo do programa Erasmus frequentou a Sorbonne Nouvelle Paris III.)

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