T-REX POR JOAQUIM PAULO NOGUEIRA

 

Lisboa, 15 de Abril de 2014

O último espectáculo em Lisboa. T-Rex, o monstro dos playbacks. Traduzes tu ou traduzo eu? T-Rex não é nem um pastiche nem um playback. Claro que mexe no esterco semiótico, no lixo ideológico, no aterro sanitário em que se tornou a nossa vida comunicante. Bastariam aqueles dez minutos inciais de som forte, agressivo, persistente, permanente para se perceber que eles não vão brincar ao “mamã, dá licença” com o linguarejar. Arejar a língua. Dar-lhe ar. Dar-lhe ares. Fazem trocadilhos aos montes, chegaria a pensar que isso poderia ser uma praga se não tivesse já percebido que a sua originalidade será sempre outra. É a de não serem originais. É a de não quererem ser originais. Até põem pi quando dizem um palavrão. Mas têm, em conjunto, uma intuição e uma sensibilidade cénica que é raro ver assim, em colectivo. Ouço-lhes as vozes, uma a uma. A primeira vez que os vi não percebi logo isso. Era um ensaio de imprensa. Queria saber quem eram os chefes. Os mandarins, os mandaretes. Não tinham. Produzem sentido como se lutassem na lama, uns com os outros. É a doer. Que os repuxos com água do luso não são obra do acaso, parece que ainda estou a ouvir a Rita Morais. Só depois, ao ouvir a entrevista que lhes fizera, ao voltar ao espectáculo, percebi que conseguiram criar um dispositivo onde nós conseguimos ver cada um, saber o que esperamos de cada um, a sua voz, a sua tessitura, o seu gesto, as suas palavras, aprendermos a gostar disso, como se os reconhecêssemos na rua, e surpreendermo-nos com o colectivo, com o comum que criam. Ao ver o espectáculo fiz uma viagem que ainda não compreendo totalmente (fui até à Serena Guerrilha, da Comuna, anos oitenta, criação colectiva mas já com a presença do Abel Neves a coser e fazer a baínha aos sentidos). A dramaturgia dos Silly Season será estudada um dia, estou certo (mesmo que eles desapareçam, como a Máscara-Teatro Grupo, mas poderemos entender hoje os anos oitenta sem o seu Vaivém cantante ?!). A estrutura rítmica, a interacção visual, o movimento, a gestualidade, a plasticidade, no cru que ainda consegue ser, germina uma dramaturgia que ainda não tem, no exterior do seu discurso, capacidade de o interpretar. Ufa, ainda bem! Ainda não têm direito ao seu momento “mainstream” como dizia Andre E. Teodósioo no CCB, num espectáculo dos Praga. Curiosamente quando caminhava para o DNA ouvia no gravador o Carlos Costa, das Visões Úteis, no último encontro sobre Dramaturgia na ESTC, a dizer que as práticas de escrita de cena já eram o cânone e que temia que isso pudesse fazer aos novos grupos o que o cânone lhes fez a eles. “-Nada a temer na mata escura!”, gostava de escrever, também em playback. Não consigo e enxoto a pontapé o paternalismo de pensar que neles vejo o futuro do teatro. Talvez veja neles por vezes o sem futuro do teatro mas isso é outra conversa. A minha conversa com o meu luto. Tenho o dobro da idade deles e não consigo esquecer a tragédia dos anos oitenta no nosso teatro, os nomes colectivos que faltam na árvore do drama. Os anos oitenta não são só a tragédia dos que faltam. São também o princípio da obesidade estética e artística de muitos dos grupos que hoje começam a estrebuchar e nós a preparamo-nos para aquela dureza cínica de vivos diante do nascer e do morrer alheio. O inferno não é a morte dos outros, é a nossa. Quando acabou o espectáculo levantei-me para os aplaudir de pé. Não para gritar bravo, bravos, como se estivesse a gritar, “O cânone morreu! Viva o cânone!”. Deus os livre por muitos anos do altar, do cânone. A aplaudir de pé apenas. Grato. Profundamente grato. Tenho um enorme sentimento de gratidão por todos aqueles que se entregam assim, como os SillySeason, à cena.

 

Joaquim Paulo Nogueira

(Rua De Baixo)

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