“SillySeason: sem templo a perder” in Notícias do Tâmega

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SILLYSEASON: SEM TEMPLO A PERDER

“Um texto de época, uma memória coletiva, a liberdade de amar contra as convenções estabelecidas. Paixão, carne, corpo, espera, angústia, repetição. Espera, angústia, repetição. Um jogo em que o espectador volta sempre à casa de partida. Sobre o teatro e o cinema, sem nunca deixar de ser as duas coisas. Um jogo sobre a palavra. Sobre a identidade. Quem és tu?” (Júri do festival)

O festival de cinema mais antigo de Lisboa premiou o ator Ivo Silva de Amarante e a sua companhia de teatro, os SillySeason, com o troféu de melhor curta-metragem portuguesa pelo seu filme Frei Luís de Sousa inspirado na obra de Almeida Garrett. Foi no passado 27 de Setembro, na grande gala de encerramento do Festival Internacional de Cinema Queer, ocorrida no Cinema São Jorge da Avenida da Liberdade, que o júri André Godinho, Joana Ferreira e o jornalista londrino Ben Walters subiu ao palco para premiar Frei Luís de Sousa dos SillySeason como a melhor curta-metragem portuguesa.

A dicotomia aferida pelos SillySeason em Frei Luís de Sousa separa passado de presente: aquilo que se poderia antever na obra como futuro, o digital, é caracterizado por um conjunto de imagens e sons já gravados previamente, compilados e relacionados em pós-produção, e que visam reproduzir uma ficção longínqua (a de Garrett), colocando-a em loop até deixar à mercê a conclusão que vigorará já fora da tela e ao vivo no espaço onde a obra decorre, no tempo presente.

O texto de Garrett, que apresenta a tragédia de uma família com a vinda do romeiro, já torna presente, como sabemos, os ideais bastante vincados do autor; esta espera incessante que desagua em lágrimas, torna-se, em Frei Luís de Sousa dos SillySeason, uma consciência de si, português, em relação a esse outro que é, no texto, Dom João, na História, El-Rei Dom Sebastião e, em ontologia, Deus, e que há-de vir, que já veio ou nunca virá.

Não se trata se Deus existe ou não, mas antes de uma procura incessante através do que fazemos por “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado” (expressão que Sto. Anselmo encontra para designar Deus). Denota-se aqui uma atitude assaz judaica, sim; e, no entanto, o Messias esperado vem com o anjo da peça, Maria, que abre as hostes deste filme, sendo esta a primeira figura de todas que nos aparece na tela com o solilóquio onde a mesma morre de vergonha: as palavras com que se inicia – “Esperai: aqui não morre ninguém sem mim.” – anuncia e traz a sua própria morte, relembra-a e verifica esta nossa escassa situação de cada vez que retomamos, público e filme, a “velha[s] relha[s] obsoleta[s]” palavras de Garrett.

A sensação de espera nesta obra dos SillySeason é levada ao limite de tal modo que a única conclusão possível é um loop interminável que transforma esta espera em desespero descontrolado. De repente, a junção entre voz e imagem que poderia parecer possível no início da curta torna-se completamente incompatível quando as imagens assumem uma repetibilidade constante sublinhando mais e mais a inação destas personagens e da própria narrativa, conferindo ao som a chave deste processo cinematográfico.

Se estivemos perante a morte no início do filme (e, ainda para mais, trazida pela figura mais nova desta peça), podemos verificar que, por consequência, tudo o que vem “depois de Maria” está morto, que quer dizer que já não faz sentido. Os créditos iniciais anotam esta separação entre “vida” e “morte” com bastante precisão: antes dos créditos, temos uma Maria que fala para a câmara, que expõe a sua história, atrai-nos, diz que vai morrer, e isto tudo com o som coincidente à sua boca, à imagem, traduzindo comunicação e naturalismo na sua forma. A partir do momento em que vemos Maria morrer, nada mais pode existir; a Maria, que é a geração mais nova da peça, pertence e está presa já numa velhice histórica, teatral, social e, acima de tudo, do ideal – não é por acaso que a figura Maria é feita pelo ator Pedro Penim, um dos representantes de uma geração artística mais velha que a dos SillySeason.

Aquelas personagens estão mortas, presas a dogmas passados que já não podem existir, e, por isso, o som afasta-se em busca de uma vitalidade, porque o som da curta-metragem, que é na sua totalidade a palavra, a voz falada, quer ser o advogado de alguma coisa. Advogado, em latim ad vocatus, é aquele que dá voz, que defende algo, que torna consciente em si. Este trilho de palavras ditas pelos SillySeason e pelo Penim, e que o Garrett escreveu, é a voz. E esta voz é a da peça, a do ator, a nossa voz, etc. Esta voz comum é Deus, porque Deus é, sobretudo, uma voz.

Quando dizemos que o som desta obra defende uma ideia estamos a pô-lo na possibilidade de e não na defesa efetiva. Isto quer dizer que o nosso som está num limbo, que se agarra às palavras que diz mas que, por estas últimas terem o poder que exalam, tem o intuito de extrapola-las. As palavras e o discurso que elas terminam pertencerão sempre a Garrett, mas agora pertencem aos SillySeason no seu discurso que agora se inicia porque eles as revisitaram. Neste seguimento, se Deus é voz como dissemos acima, então isso faz dos interlocutores destas palavras deuses.

No início deste meu argumento, falávamos da espera d’Aquele que há-de vir, o Messias que, por analogia, é Dom Sebastião, que o povo português aguarda eternamente a sua vinda numa noite de nevoeiro. Pois bem: a narrativa de Frei Luís de Sousa não avança de torna-se em loop porque não há nenhum Dom Sebastião por vir; quando os SillySeason e o Pedro Penim são interlocutores, dão a voz no som fílmico, e por isso estão a ser Deus, então eles são Aquele que há-de vir e, por concordância, Dom Sebastião são eles próprios. A vinda de El-Rei concretiza-se, assim, no ato de criar, no ato de defesa de uma ideia.

Ivo Silva, ator e criador

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