“Ler Tchékhov e esquecê-lo a seguir” in Jornal Público, sábado, 09.04.2016

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Ler Tchékov e esquêce-lo a seguir, por Samuel Silva

No princípio estava O Cerejal, de Anton Tchékhov. Os seis elementos da companhia SillySeason leram a peça do dramaturgo russo, analisaram as palavras, tentaram perceber as inquietações das personagens. E depois largaram tudo. É essa a linguagem da jovem companhia, para a qual o texto dramático é apenas o Prado de Fundo a que se refere o título do espetáculo que se estreia hoje às 22h no espaço da mala voadora, no Porto (segunda apresentação amanhã, às 18h).  Um exercício sobre a memória, que também se cruza com a fotografia.

Prado de Fundo é uma novidade no percurso da companhia, que pela primeira vez trabalha declaradamente sobre um texto dramático. Todavia, as palavras de Tchékhov não são para pôr em cena. Nunca foi hipótese fazer uma encenação de O Cerejal, ou sequer uma versão da peça, contam. O que interessa ao colectivo é a memória que fica depois do processo inicial de trabalho. Mais uma vez: ler, trabalhar e depois largar tudo. “Ora desconstruímos ideias, ora juntamos outras”, explica Cátia Tomé, um dos seis co-criadores do espetáculo.

Os SillySeason nasceram em 2012 e, como o próprio grupo reconhece, estão ainda a viver “uma fase de experimentação”. Por isso, as criações dão espaço a que cada elemento da companhia possa propor aquilo que quer testar em cada momento. “Tentamos respeitar o que cada um quer fazer”, defende Ricardo Teixeira, outro dos co-criadores. Depois, há uma altura em que o espetáculo começa a obrigar a que se tomem decisões e algumas dessas propostas pessoais vão sendo colocadas de parte. Ainda assim, é visível que o resultado final é um espetáculo constituído por cenas autónomas que às vezes é difícil relacionar entre si, intercalando solos com momentos colectivos.

Cruzamentos

No curto percurso do colectivo, porém, emerge já uma ideia forte: o cruzamento de linguagens. Nas suas criações, o teatro está sempre em confronto com outros universos, seja a música pop em T-Rex (2014) ou o vídeo e a arquitectura em Panorama (2015). Desta feita é a fotografia que os SillySeason convocam para o trabalho, questionando a relação entre as duas artes, tentando perceber o que há de comum entre elas. “A memória” é a resposta a que chegaram, e o ponto central da nova criação. O que dá um outro sentido à escolha de O Cerejal como ponto de partida. Na peça de Tchékhov – não por acaso escrita no início do século XX, numa altura em que a fotografia se afirmava como técnica e como arte -, as personagens vivem em permanente relação com a memória, como se não tivessem futuro.

Aquilo a que chamam o I Acto é uma peça em vídeo (de João Leitão) que recupera um conjunto de fotografias, umas mais reconhecíveis do que outras. Há imagens icónicas da história da fotografia, criações de artistas que dirão menos ao grande público e as fotografias da nossa era, que invadem os ecrãs de computadores e de telemóveis através de partilhas maciças nas redes sociais. Esse ponto de partida tenta estabelecer a teia a partir da qual podemos relacionar-nos com a peça. “A ideia é que o público se encaixe nessa memória e, à medida que o espetáculo avança, perceba, tal como nós, como é que se sai dessa memória”, explica Ivo Silva. No fundo, exactamente o que fizeram com O Cerejal e com Tchékhov.

Esta é a primeira vez que a estrutura recebe um apoio da Direcção-Geral das artes, o que lhe permitiu dedicar um mês em exclusivo ao trabalho nesta criação, com residências artísticas n’O Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, e em Guimarães (Centro de Criação de Candoso e Fábrica ASA). Em lugar de ensaiarem apenas no final do expediente como quando tinham de articular o teatro com outras actividades paralelas, os actores puderam “trabalhar 24 sobre 24 horas” na peça, o que, acreditam os SillySeason, “acaba por reflectir-se positivamente no espetáculo”.

in Público, 09/04/2016, p. 30

 

 

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