Nós e o Joaquim Paulo Nogueira #2

Lisboa, 17 de Junho de 2016

Corajoso este espetáculo. Principalmente quando esta súbita onda de calor e afecto pelos emergentes, numa cena teatral que ainda há uns dez anos estava assente naquele conjunto de grupos que desde o 25 de Abril vinha fazendo a colecta maior do apoio público ao teatro, tende, naturalmente, muitas vezes a condicioná-los na sua identidade, de modo a poderem continuar nas boas graças de uma rede de influência entre a programação e a mediação cultural que implica, claro, também os media. Tal não retraiu os SillySeason de sairem do aconchego das tábuas e brincarem com o trabalho sobre os textos da dramaturgia mais ou menos contemporânea que caracterizou o teatro das primeira três décadas pós 25 de Abril e e meterem-se com os mais velhos (sejam eles , neste caso dos encenadores que trabalharam Tchecov, João Lourenço, Vera Sampaio Lemos, Rogério de Carvalho e até Mónica Calle). Estou por isso com muita curiosidade para saber como vai ser recebido este Prado de Fundo dos SillySeason e em que medida é que esta recepção vai valorizar o investimento que o grupo tem feito na criação de uma linguagem própria (estou aqui estou a a desafiar-me a mim mesmo para escrever um texto para a RDB sobre este espectáculo). Não sei se eu próprio estou completamente pacificado com este espectáculo. Saí com a sensação de que a dramaturgia do espectáculo o teria deixado incompleto. Quanto a mim, os SillySeason, independentemente de qual o espectáculo, têm uma dramaturgia que antecede a especificidade do trabalho dramatúrgico com que se entregam a cada tema, assente em algumas linhas muito curiosas: um conjunto de estratégias discursivas (por exemplo a repetição coral, um actor diz uma frase, o outro acrescenta-a e repete-a; uma desconstrução fonética da palavra, brincando com as suas possíveis ressonâncias; uma variação permanente entre a acção colectiva e o monólogo que tende quase sempre para uma bem sucedida intensificação deste; e depois, e é aqui que eu encontro a singularidade do trabalho do grupo, a um espaço para uma expressividade, desde o corpo à voz ao pensamento, de cada um dos actores. Não há nenhum dos actores que não participe activamente com o peso da sua expressão individual para a singularidade expressiva do grupo. E é esse aspecto que ficou quanto a mim aquém. Mas esse seria provavelmente o espectáculo que eu imaginaria para eles não o que eles fizeram e disseram desde logo ao que vinham dentro do princípio de uma frontalidade que os caracteriza: “Comprei uma moldura. E só depois tirei a fotografia. É uma questão de confiança. Pode confiar-se numa moldura, já numa fotografia”. Nesse aspecto o espectáculo cumpre o seu trabalho. Eu, porque gosto muito deles, gostaria de ter visto o espectáculo a continuar, para mim começaria verdadeiramente ali, naquele silêncio, já que anteriormente tinha sido apenas uma prepararão do terreno para a sementeira.

Joaquim Paulo Nogueira

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©Alípio Padilha

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