“Carta” in Notícias do Tâmega

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Amarante, 8 de Dezembro de 2016

Queridos amigos e conterrâneos,

Apresentei este Sábado, 3, no Cineteatro Raimundo Magalhães às dez da noite, o espetáculo mais carinhoso e tragicómico dos SillySeason. Foi a última noite das nossasvidas em que falámos deste prado. É uma peça sobre mim, sobre nós, sobre a nossa recordação pessoal, sobre a nossa memória social e, por isso, coletiva, e sobre a nossa história com agá pequeno e agá grande. O que assistiram foi aquilo a que se chama de teatro p’rá frentex ou, cedendo às designações oficiais, teatro pós-moderno e pós-dramático. Somos, portanto, pós-modernos a querer ser p’rós modernos quando, na verdade, somos posh-modernos. Este é um tipo de espetáculo onde experimentamos de tudo – dança, música, som, luz, vídeo – e sugerimos a ativação de todo o mecanismo cénico. Ainda assim, fomos à nossa biblioteca teatral buscar uma história muito, muito antiga, uma história russa chamada O Cerejal do dramaturgo Anton Tchekov, aquele célebre comprimido para as insónias. O Cerejal fala sobre vocês durante este espetáculo. Interessou-nos, neste projeto, testar a relação do teatro com a fotografia e, por isso, falar sobre o conceito de memória. O que é que recordamos quando nos lembramos de algo? Que acontecimento específico, ou sensação, ou cheiro, ou cor, ou qualquer outra coisa nos traz uma fotografia nossa quando a vemos? Como e porquê voltar a viver um passado que já não está cá e que, muito provavelmente, nunca esteve? Sabemos, por algumas informações contraditórias, que a História tal qual nos é contada não aconteceu verdadeiramente e que é apenas uma visão de alguém ou uma anotação incompleta dos factos. Prado de Fundo fala essencialmente disso, de como será descredibilizar a nossa História, quer seja ela a nossa memória coletiva ou individual, pois convivemos ao mesmo tempo com o particular e o universal ao longo de todo o espetáculo. Pareceu-nos que O Cerejal do Tchekov lidava com estas questões, pois as suas personagens não só não vivem no presente e recusam um futuro, como existem mediante a evocação de um passado que construíram naquele sítio específico, no cerejal. A narrativa da peça é muito simples: há uma família que possui uma casa com um belo, oponente e muito velho pomar de cerejeiras, viveu lá a vida inteira, e que se vê obrigada a vender aquela propriedade por dívidas que contraiu. Só que a venda do cerejal é ao mesmo tempo o desapego forçado a um passado vivido, ou melhor, àquilo que as personagens se lembram que viveram. E, desta feita, para nós, este cerejal é a toda a nossa História que nós recordamos ou que nos ensinaram ou que nós tentamos fixar numa imagem, numa fotografia. Ou seja, em Prado de Fundo, os SillySeason não servem a peça de Tchekov mas é a peça de Tchekov que os serve. O Cerejal é como a nossa vida: uma comédia melancólica em quatro atos. Como é que te desapegas da tua família quando vais para a faculdade ou quando emigras? Como é que esqueces a outra pessoa quando acabas uma relação amorosa? Como é que te despedes de um ente querido que falece? No final, havemos de descobrir que é necessário adquirir esse passado e depois deixá-lo, cortar com ele. Só aí estamos aptos para um futuro, para a inscrição de uma nova História voltada para a evolução, e que isso é muito difícil de se fazer. Prado de Fundo é um espetáculo que precisou de muita gente envolvida para se concretizar, direta e indiretamente. Foi o primeiro projeto da minha companhia com apoio estatal, financiado pela dgArtes e Fundação GDA, e com o qual vivemos como uma verdadeira família Tchekoviana até atingirmos o colapso. Mas nesta obra não há armas, e a solução deveu-se a assumir que a tragédia é uma comédia inacabada. No meu caso, não poderia terminar a tournée da melhor forma: em Amarante que me viu crescer. Foi convosco, conterrâneos, que celebrei a última noite de Prado de Fundo dos SillySeason. Nunca pensámos que poderíamos ter tanta gente em Vila Meã a ver este espetáculo muito querido, feito de dor e prazer, numa noite que com chuva iniciou e com chuva terminou. Prado de Fundo é para o meu pai, a minha mãe e o Tomás. Para a minha família. Só uma de sangue mas as duas de coração: para os Saraiva e Silva e os SillySeason – tenho este destino com ésses. Agradeço ao Rui Horta, também é para ele. À Pia e à Ana Carina. À Susana e à Nanika. Ao Jackson e ao Tiago. Ao Pedro e à Joana. À Cristina Correia. Ao José Capela, ao Rui Torrinha, ao Jorge Silva Melo, à Paula Sá Nogueira, à Mariana Sá Nogueira, à Joana Dilão e ao Pedro Barreiro. À restante equipa do Cão Solteiro, do Espaço do Tempo, do CCVF, da malavoadora.porto, do Teatro da Politécnica, do Teatro Praga, do Teatro Sá da Bandeira e da Câmara Municipal de Amarante. Um muito obrigado de coração na boca. Esta apresentação foi dedicada a todas estas gentes e entidades que arriscaram connosco, e também àquelas, desse lado, que nos vieram ver a ser felizes. Amarante é, afinal, um lugar muito bonito e que pode prometer novas dialéticas. A peça é também dedicada a vocês, pessoas que encheram o Cineteatro Raimundo Magalhães, aos meus amigos que estiveram lá. A arte é feita com pessoas, sempre, por isso este projeto nunca poderia ter sido possível sem todo este apoio. Prado de Fundo tem a luz de Sara Garrinhas e a adequação, neste caso, de Filipa Romeu, e a fotografia de Alípio Padilha e de Rui Palma, e a comunicação de Tiago Costa Mansilha, cinco pessoas pelas quais tenho muito carinho e amizade. Obrigado. E porque “quando se receitam muitos medicamentos contra uma doença isso significa que essa doença é incurável”, como dizia o tio Tchekov (um beijinho para ele, se me estiver a ler), tenho de partilhar esta incurável doença que me sonda há dez anos. Para lá da vida e para lá da morte, maior que o amor, este espetáculo foi feito por, com e para a Ana Sampaio, a minha cholita, a minha toninha Cátia Tomé, a Ritonta, o Jone Bigodes, o meu Sebas do coração, e para o Ricardo, o eterno e verdadeiro prado de fundo. Este espetáculo é o meu hino a eles. A felicidade, como a saudade, aliás, começa agora. Há doenças incuráveis, não há?

Ivo Silva

 

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